RACISMO

RACISMO

Denunciado na Câmara, vereador é investigado por outro ato de injúria racial

Denunciado na Câmara, vereador é investigado por outro ato de injúria racial

Em seu segundo mandato, Camilo Cristófaro é alvo de pelo menos três denúncias de injúria racial na Corregedoria da Câmara.

Em seu segundo mandato, Camilo Cristófaro é alvo de pelo menos três denúncias de injúria racial na Corregedoria da Câmara.

Por Carlos Petrocilo | 18/05/2022 | Tempo de leitura: 4 min
da Folhapress

Por Carlos Petrocilo
da Folhapress

18/05/2022 - Tempo de leitura: 4 min

Reprodução/Instagram

Camilo Cristófaro (Avante) pronunciou uma frase de cunho racista em sessão na Câmara Municipal de São Paulo

Assim que soube pelo noticiário que Camilo Cristófaro (Avante) pronunciou uma frase de cunho racista em sessão na Câmara Municipal de São Paulo, a auxiliar de enfermagem Dilza Maria Pereira, 59, dirigiu-se para o 2º DP, do Bom Retiro, no centro da capital.

Ela quis saber a situação do inquérito instaurado para apurar eventual crime de injúria racial, após ter registrado em maio de 2020 um boletim de ocorrência contra o vereador e uma líder comunitária.

O delegado Paulo César da Costa concluiu o relatório final da investigação no mesmo dia em que o Cristófaro disse "é coisa de preto" na sessão.

"O vereador, Camilo Cristófaro Martins Junior, aos berros, disse: 'Negra safada e além de negra safada era uma negra ladra sem poder nenhum de voz' (sic). Fato presenciado por inúmeras pessoas", escreveu o delegado no relatório.

Ao longo da investigação, oito testemunhas prestaram depoimento. Cristófaro ignorou todas as intimações.

Procurado pela reportagem, o vereador escreveu pelo WhatsApp que não conhece Dilza e que, na única vez em que esteve na delegacia, o escrivão não pôde atendê-lo e ficou de marcar uma nova data para o depoimento.

"Em suma, todos os depoimentos corroboram para a ocorrência de crime de Injúria Racial", concluiu o delegado.

De acordo com o artigo 20 da lei 7.716, de 1989, é crime "praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional". A pena é de reclusão de 1 a 3 anos e multa.

O relatório foi entregue no último dia 10 ao Tribunal de Justiça de São Paulo. A corte o encaminhou ao Ministério Público, que, por meio do grupo Especial de Combate aos Crimes Raciais e de Intolerância (Gecradi), tem o prazo de 90 dias para concluir as investigações e decidir se oferece denúncia ou, então, pede o arquivamento do caso.

Aos policiais, Dilza narrou que durante o seu trabalho na Associação dos Recicladores do Parque do Gato, na região do Bom Retiro, foi abordada pelo vereador que passou a xingá-la: "A senhora é uma nega safada, que está roubando a comunidade no valor de 4 mil reais por mês por pessoa" [sic] e "negra traficante safada bandida" e "negra golpista e oportunista", conforme trechos do boletim de ocorrência eletrônico.

Segundo ela, Cristófaro foi até o terreno que abriga a associação, na avenida Presidente Castelo Branco, altura do número 5.200, para dizer que o local deveria ser desocupado.

A associação já havia recebido um auto de intimação, elaborado pela Prefeitura de São Paulo, para desocupar a área ou apresentar uma defesa no prazo de 15 dias.

"O interesse do Camilo era o de ceder o terreno à escola de samba Vai-Vai", diz Dilza à reportagem.

"O Camilo já chegou colocando o dedo na minha cara e me xingando de todos esses nomes, negra bandida, golpista, traficante e oportunista", afirma a mulher.

A reportagem perguntou à SSP (Secretaria de Segurança Pública) quais os motivos para que o inquérito demorasse dois anos até a sua conclusão pela Polícia Civil, mas não recebeu a resposta a esta pergunta. Um funcionário da pasta disse, por telefone, que se trata de uma coincidência.

Em nota, a secretaria disse que foram realizadas diligências e testemunhas, ouvidas. "O trabalho policial foi concluído e relatado para análise do Poder Judiciário", afirmou.

Jorge Ferreira, advogado de Dilza, reclama de uma suposta má vontade do vereador e da líder comunitária durante as investigações.

"O problema é que, após abertura do inquérito, os investigados nunca compareceram à delegacia, dificultando o andamento", afirma Ferreira, membro do núcleo antidiscriminatório da comissão de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

"Somente agora com a repercussão, decidiram concluir o inquérito mesmo sem ouvir o vereador e a sua assessora, já que eles não compareceram por vontade própria", completa o advogado.

Em seu segundo mandato, Cristófaro é alvo de pelo menos três denúncias de injúria racial na Corregedoria da Câmara.

Na primeira, em 2018, ele foi flagrado em um vídeo puxando os olhos com as mãos e se referindo ao vereador George Hato (MDB), de ascendência japonesa, em 2018. Em 2019, Cristófaro chamou o vereador Fernando Holiday (Novo) de macaco de auditório no Plenário.

Por último, neste mês, a Corregedoria recebeu quatro denúncias -feitas por membros do PSOL e União Brasil e por munícipes- contra Cristófaro em razão da expressão "coisa de preto".

Nesse processo, o corregedor, vereador Gilberto Nascimento (PSC), nomeou nesta terça (17) Elaine Mineiro (PSOL), da bancada coletiva Quilombo Periférico, para relatar o caso.

Nascimento atendeu a um pedido de Milton Leite (União Brasil), presidente da Casa e que atua para que o vereador seja cassado.

Também há um inquérito em andamento na Polícia Civil após a bancada do PSOL ter registrado boletim de ocorrência na Decradi, a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, em São Paulo.

O caso de Dilza não foi registrado na Corregedoria. "A Presidência da Câmara não tinha nenhum conhecimento sobre este caso. A cidadã ofendida pode e deve procurar a Corregedoria da Câmara para denunciar", afirma a assessoria da casa.

Assim que soube pelo noticiário que Camilo Cristófaro (Avante) pronunciou uma frase de cunho racista em sessão na Câmara Municipal de São Paulo, a auxiliar de enfermagem Dilza Maria Pereira, 59, dirigiu-se para o 2º DP, do Bom Retiro, no centro da capital.

Ela quis saber a situação do inquérito instaurado para apurar eventual crime de injúria racial, após ter registrado em maio de 2020 um boletim de ocorrência contra o vereador e uma líder comunitária.

O delegado Paulo César da Costa concluiu o relatório final da investigação no mesmo dia em que o Cristófaro disse "é coisa de preto" na sessão.

"O vereador, Camilo Cristófaro Martins Junior, aos berros, disse: 'Negra safada e além de negra safada era uma negra ladra sem poder nenhum de voz' (sic). Fato presenciado por inúmeras pessoas", escreveu o delegado no relatório.

Ao longo da investigação, oito testemunhas prestaram depoimento. Cristófaro ignorou todas as intimações.

Procurado pela reportagem, o vereador escreveu pelo WhatsApp que não conhece Dilza e que, na única vez em que esteve na delegacia, o escrivão não pôde atendê-lo e ficou de marcar uma nova data para o depoimento.

"Em suma, todos os depoimentos corroboram para a ocorrência de crime de Injúria Racial", concluiu o delegado.

De acordo com o artigo 20 da lei 7.716, de 1989, é crime "praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional". A pena é de reclusão de 1 a 3 anos e multa.

O relatório foi entregue no último dia 10 ao Tribunal de Justiça de São Paulo. A corte o encaminhou ao Ministério Público, que, por meio do grupo Especial de Combate aos Crimes Raciais e de Intolerância (Gecradi), tem o prazo de 90 dias para concluir as investigações e decidir se oferece denúncia ou, então, pede o arquivamento do caso.

Aos policiais, Dilza narrou que durante o seu trabalho na Associação dos Recicladores do Parque do Gato, na região do Bom Retiro, foi abordada pelo vereador que passou a xingá-la: "A senhora é uma nega safada, que está roubando a comunidade no valor de 4 mil reais por mês por pessoa" [sic] e "negra traficante safada bandida" e "negra golpista e oportunista", conforme trechos do boletim de ocorrência eletrônico.

Segundo ela, Cristófaro foi até o terreno que abriga a associação, na avenida Presidente Castelo Branco, altura do número 5.200, para dizer que o local deveria ser desocupado.

A associação já havia recebido um auto de intimação, elaborado pela Prefeitura de São Paulo, para desocupar a área ou apresentar uma defesa no prazo de 15 dias.

"O interesse do Camilo era o de ceder o terreno à escola de samba Vai-Vai", diz Dilza à reportagem.

"O Camilo já chegou colocando o dedo na minha cara e me xingando de todos esses nomes, negra bandida, golpista, traficante e oportunista", afirma a mulher.

A reportagem perguntou à SSP (Secretaria de Segurança Pública) quais os motivos para que o inquérito demorasse dois anos até a sua conclusão pela Polícia Civil, mas não recebeu a resposta a esta pergunta. Um funcionário da pasta disse, por telefone, que se trata de uma coincidência.

Em nota, a secretaria disse que foram realizadas diligências e testemunhas, ouvidas. "O trabalho policial foi concluído e relatado para análise do Poder Judiciário", afirmou.

Jorge Ferreira, advogado de Dilza, reclama de uma suposta má vontade do vereador e da líder comunitária durante as investigações.

"O problema é que, após abertura do inquérito, os investigados nunca compareceram à delegacia, dificultando o andamento", afirma Ferreira, membro do núcleo antidiscriminatório da comissão de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

"Somente agora com a repercussão, decidiram concluir o inquérito mesmo sem ouvir o vereador e a sua assessora, já que eles não compareceram por vontade própria", completa o advogado.

Em seu segundo mandato, Cristófaro é alvo de pelo menos três denúncias de injúria racial na Corregedoria da Câmara.

Na primeira, em 2018, ele foi flagrado em um vídeo puxando os olhos com as mãos e se referindo ao vereador George Hato (MDB), de ascendência japonesa, em 2018. Em 2019, Cristófaro chamou o vereador Fernando Holiday (Novo) de macaco de auditório no Plenário.

Por último, neste mês, a Corregedoria recebeu quatro denúncias -feitas por membros do PSOL e União Brasil e por munícipes- contra Cristófaro em razão da expressão "coisa de preto".

Nesse processo, o corregedor, vereador Gilberto Nascimento (PSC), nomeou nesta terça (17) Elaine Mineiro (PSOL), da bancada coletiva Quilombo Periférico, para relatar o caso.

Nascimento atendeu a um pedido de Milton Leite (União Brasil), presidente da Casa e que atua para que o vereador seja cassado.

Também há um inquérito em andamento na Polícia Civil após a bancada do PSOL ter registrado boletim de ocorrência na Decradi, a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, em São Paulo.

O caso de Dilza não foi registrado na Corregedoria. "A Presidência da Câmara não tinha nenhum conhecimento sobre este caso. A cidadã ofendida pode e deve procurar a Corregedoria da Câmara para denunciar", afirma a assessoria da casa.

1 COMENTÁRIOS

A responsabilidade pelos comentários é exclusiva dos respectivos autores. Por isso, os leitores e usuários desse canal encontram-se sujeitos às condições de uso do portal de internet do Portal GCN e se comprometem a respeitar o Código de Conduta On-line do GCN.

Ainda não é assinante?

Clique aqui para fazer a assinatura e liberar os comentários no site.

  • rui
    19/05/2022
    BOLSONARISTA BABACA