NOSSAS LETRAS

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Palavras

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Quarto ano primário, século passado, final de ano, terminava então a primeira etapa da minha escolaridade. Leia a crônica de Lúcia Brigagão.

Quarto ano primário, século passado, final de ano, terminava então a primeira etapa da minha escolaridade. Leia a crônica de Lúcia Brigagão.

Por Lúcia Brigagão | 30/07/2022 | Tempo de leitura: 4 min
especial para o GCN

Por Lúcia Brigagão
especial para o GCN

30/07/2022 - Tempo de leitura: 4 min

“Perdi muito tempo até aprender que não se guardam as palavras: ou você as fala, as escreve ou elas te sufocam.”

Quarto ano primário, século passado, final de ano, terminava então a primeira etapa da minha escolaridade. Tinha colegas de classe importantes: filhas e filhos dos professores da escola considerada a mais importante de então, de onde saíram engenheiros, médicos, advogados, grandes empresários, comerciantes, professores e profissionais, políticos e cidadãos que escreveram a história da cidade.

A professora me pediu para ficar na sala, depois que o sinal para o recreio tocou. Tremi nas bases. Aquilo não era bom. Ela deixou todos os colegas saírem da sala, me pediu para aproximar da mesa e, detrás das lentes grossas dos óculos, disse: “Lúcia Helena, tenho comunicação a lhe fazer. Espero que entenda. Você se destacou, desde que veio para minha sala na terceira série, como aluna de português. Suas composições são impecáveis, nós professores, gostamos muito de suas poesias e, como é término de etapa escolar, é preciso eleger o aluno destaque nas várias matérias do currículo. Um dos seus colegas de classe é filho do professor de português da escola. Conversei com os outros professores e decidimos que o prêmio de destaque deve ir para ele, que também é bom. Não como você, mas é bom, também. Então sinta-se homenageada, mas o prêmio irá para ele, na cerimônia de entrega dos diplomas. Devo ter ficado com cara de tacho, mas reagir? Só abanei a cabeça, fui para o pátio. Encostei num pilar da área das meninas, pus a cabeça nele, profunda melancolia me invadiu.

Foi pior, no dia da premiação. Ganhei o livro Alice no País das Maravilhas, autografado: “Para Lúcia Helena, como prêmio à sua dedicação aos estudos.” Foi para a estante como estava, até um dia quando, já adulta, abri o livro e li. Havia passado o resto da infância, a puberdade, parte da adolescência, quando ele parou de queimar nas minhas mãos e eu descobrir que Lewis Carroll tinha escrito minha história: a da menina que havia ido para um mundo fantástico, após cair numa toca de coelho... Nunca mais escrevi uma linha sequer. Nunca mais texto ou poesia. Fiquei no médio inferior, suficiente apenas para passar de ano. Mas continuava a ler vorazmente.

Certo dia o professor de português, pai da menina que ganhou o prêmio que considerava meu, disse à classe que queria texto de apreciação de leitura de qualquer livro que tivéssemos lido. Era prova mensal. Deveríamos criticar o livro, falar sobre o tema, avaliá-lo, explicar o motivo da escolha e do interesse por ele.

Servidão Humana, Um Gosto e Seis Vinténs, O Fio da Navalha, O Véu Pintado, As Paixões de Júlia eram livros que eu havia recém lido, mas sem comentar com ninguém, todos de W. Somerset Maugham, surrupiados do criado-mudo de minha mãe, que fiscalizava minhas leituras por considerar algumas escolhas totalmente inadequadas para minha idade. Ai se ela soubesse que na época eu havia lido até O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence, considerado “forte” para adolescentes, pornográfico até para adultos, na opinião de muitos. Escolhi O Fio da Navalha e fiz minha adolescente avaliação sobre ele.

Larry Darrel, jovem piloto americano é a figura central deste romance, ainda hoje um dos meus prediletos. Larry acompanha os últimos momentos de jovem combatente também seu amigo, que perde a vida para salvá-lo. E o fato se torna um fardo para ele, que passa a questionar o sentido da vida, suas ambições o destino humano. Sai em peregrinação de descobertas íntimas e busca incessantemente alcançar paz interior. Questiona a si mesmo, suas amizades, seus relacionamentos. Não me lembro o que mais me atraiu, se foi o enredo ou a descrição dos lugares por onde passa, buscando paz. E respostas. Ganhei nota dez e elogio do meu professor, com quem fiz as pazes por erro que ele não cometera. Nem soubera. Por culpa que não era dele.

O livro ganhou duas versões fantásticas no cinema. Uma com Tyrone Power e Gene Tierney, em 1946 e a outra com Bill Murray, em 1984.

Desde a leitura, nunca mais esperei qualquer aprovação sobre o que escrevo ou que falo ou de qualquer atitude minha. Como Larry, descobri que as respostas às minhas perguntas e verdades estão dentro de mim. E é ali que vou buscá-las, digeri-las e dizê-las. Hoje, tirei uma pedra da minha garganta contando a história.

“Perdi muito tempo até aprender que não se guardam as palavras: ou você as fala, as escreve ou elas te sufocam.”

Quarto ano primário, século passado, final de ano, terminava então a primeira etapa da minha escolaridade. Tinha colegas de classe importantes: filhas e filhos dos professores da escola considerada a mais importante de então, de onde saíram engenheiros, médicos, advogados, grandes empresários, comerciantes, professores e profissionais, políticos e cidadãos que escreveram a história da cidade.

A professora me pediu para ficar na sala, depois que o sinal para o recreio tocou. Tremi nas bases. Aquilo não era bom. Ela deixou todos os colegas saírem da sala, me pediu para aproximar da mesa e, detrás das lentes grossas dos óculos, disse: “Lúcia Helena, tenho comunicação a lhe fazer. Espero que entenda. Você se destacou, desde que veio para minha sala na terceira série, como aluna de português. Suas composições são impecáveis, nós professores, gostamos muito de suas poesias e, como é término de etapa escolar, é preciso eleger o aluno destaque nas várias matérias do currículo. Um dos seus colegas de classe é filho do professor de português da escola. Conversei com os outros professores e decidimos que o prêmio de destaque deve ir para ele, que também é bom. Não como você, mas é bom, também. Então sinta-se homenageada, mas o prêmio irá para ele, na cerimônia de entrega dos diplomas. Devo ter ficado com cara de tacho, mas reagir? Só abanei a cabeça, fui para o pátio. Encostei num pilar da área das meninas, pus a cabeça nele, profunda melancolia me invadiu.

Foi pior, no dia da premiação. Ganhei o livro Alice no País das Maravilhas, autografado: “Para Lúcia Helena, como prêmio à sua dedicação aos estudos.” Foi para a estante como estava, até um dia quando, já adulta, abri o livro e li. Havia passado o resto da infância, a puberdade, parte da adolescência, quando ele parou de queimar nas minhas mãos e eu descobrir que Lewis Carroll tinha escrito minha história: a da menina que havia ido para um mundo fantástico, após cair numa toca de coelho... Nunca mais escrevi uma linha sequer. Nunca mais texto ou poesia. Fiquei no médio inferior, suficiente apenas para passar de ano. Mas continuava a ler vorazmente.

Certo dia o professor de português, pai da menina que ganhou o prêmio que considerava meu, disse à classe que queria texto de apreciação de leitura de qualquer livro que tivéssemos lido. Era prova mensal. Deveríamos criticar o livro, falar sobre o tema, avaliá-lo, explicar o motivo da escolha e do interesse por ele.

Servidão Humana, Um Gosto e Seis Vinténs, O Fio da Navalha, O Véu Pintado, As Paixões de Júlia eram livros que eu havia recém lido, mas sem comentar com ninguém, todos de W. Somerset Maugham, surrupiados do criado-mudo de minha mãe, que fiscalizava minhas leituras por considerar algumas escolhas totalmente inadequadas para minha idade. Ai se ela soubesse que na época eu havia lido até O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence, considerado “forte” para adolescentes, pornográfico até para adultos, na opinião de muitos. Escolhi O Fio da Navalha e fiz minha adolescente avaliação sobre ele.

Larry Darrel, jovem piloto americano é a figura central deste romance, ainda hoje um dos meus prediletos. Larry acompanha os últimos momentos de jovem combatente também seu amigo, que perde a vida para salvá-lo. E o fato se torna um fardo para ele, que passa a questionar o sentido da vida, suas ambições o destino humano. Sai em peregrinação de descobertas íntimas e busca incessantemente alcançar paz interior. Questiona a si mesmo, suas amizades, seus relacionamentos. Não me lembro o que mais me atraiu, se foi o enredo ou a descrição dos lugares por onde passa, buscando paz. E respostas. Ganhei nota dez e elogio do meu professor, com quem fiz as pazes por erro que ele não cometera. Nem soubera. Por culpa que não era dele.

O livro ganhou duas versões fantásticas no cinema. Uma com Tyrone Power e Gene Tierney, em 1946 e a outra com Bill Murray, em 1984.

Desde a leitura, nunca mais esperei qualquer aprovação sobre o que escrevo ou que falo ou de qualquer atitude minha. Como Larry, descobri que as respostas às minhas perguntas e verdades estão dentro de mim. E é ali que vou buscá-las, digeri-las e dizê-las. Hoje, tirei uma pedra da minha garganta contando a história.

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