NOSSAS LETRAS

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Catleias, Proust e coisas mais

Catleias, Proust e coisas mais

Assim é a nossa vida. A questão é saber o que vale a pena suportar. E o que não vale. Leia a crônica de Sonia Machiavelli.

Assim é a nossa vida. A questão é saber o que vale a pena suportar. E o que não vale. Leia a crônica de Sonia Machiavelli.

Por Sonia Machiavelli | 30/07/2022 | Tempo de leitura: 4 min
especial para o GCN

Por Sonia Machiavelli
especial para o GCN

30/07/2022 - Tempo de leitura: 4 min

Quando o aristocrático Swann consegue o primeiro encontro a sós com Odette de Crécy, a cocotte chic, chamam-lhe atenção as orquídeas que a enfeitam. Ela leva uma dessas flores nas mãos; outra no chapéu; e ainda tem o vestido adornado por uma terceira. Todas pertencem à espécie Catleia. O casal está dentro de uma carruagem que corre pelas ruas de Paris. De repente, um obstáculo faz o cavalo se assustar. Odette desloca-se no seu banco e dá um gritinho. Swann inicia ali um tortuoso caso que vai durar anos:  ajuda-a a se recompor, começando por ajeitar as flores do decote. É o preâmbulo para a criação de um fetiche que jamais se apagará na mente do personagem de Em busca do tempo perdido, romance de Marcel Proust. A partir daí, Swann criará um neologismo pessoal para convidar a amante para a cama: “fazer catleia.”

Enquanto me detenho sobre o erotismo da cena, resgato a etimologia da palavra orquídea que significa testículo em grego e me pergunto sobre os possíveis leitores do caudaloso Proust nesse nosso tempo marcado pelo Twitter, olho para duas catleias que tenho no quintal, incrivelmente fixadas num muro. São roxas, mas há espécies de várias cores. Tenho outra branca, ancorada num galho de buganvília na frente de casa. Só florescem em junho.

Já vi em orquidários catleias cor de goiaba, de vinho e até negras- essas, raridades. Todas têm origem na América do Sul. Na Europa até hoje são consideradas exóticas, como no tempo em que o escritor francês viveu.  Seu preço sempre foi alto. Vi no site de uma floricultura de Grenoble, magnífica espécie carmim vendida por duzentos euros! Nas brasileiras tais plantas são pouco comuns; os cruzamentos que garantiram as phalaenopsis de origem asiática, duráveis até quatro meses em suas altas hastes, exilaram as catleias, que logo fenecem e demandam mais trabalho de conservação.

Um orquidófilo me disse recentemente que as catleias precisam de muita luz direta, mas odeiam o sol do meio-dia.  Colocadas dentro de casa, devem ficar próximas de uma janela virada para leste. Ao ar livre, pedem luz e aragem durante sete horas. A temperatura ideal nas estufas deve ficar entre os 13 e os 16 graus à noite; durante o dia, entre 20 e 30. As jovens precisam de temperaturas mais elevadas que as maduras. Cito de memória; havia um longo etc. na fala de meu amigo. Ouvi tudo, avaliando que elas lhe davam mais trabalho que seu neto recém-nascido. E fiquei instigada em relação ao fato de que as minhas não tinham tais privilégios, suas raízes se agarravam há tempos ao muro caiado de forma que ninguém as arrancava dali. Mesmo assim, na ocasião certa, ficavam carregadinhas de flores. Quer dizer, até agora.

Aconteceu que no começo do ano achei que a da esquerda estava muito feia, com partes secas ou amareladas que me irritavam. O curioso é que ela está ali há sete anos e nunca havia me incomodado nessa fase de entressafras. Hoje penso que naquele momento projetava nela alguma outra fealdade.  Então fiz coisa indevida por desconhecer seus efeitos. Peguei uma tesoura e cortei aquelas protuberâncias secas, os tais pseudobulbos, nome que vim a saber depois. Na hora fiquei aliviada. Mas algo em seguida me bateu de leve, tipo “será que fiz a coisa certa?” Na dúvida, poupei a outra, que aliás não estava com má aparência.

Na voragem dos dias esqueci o episódio. Mas neste junho, quando uma das duas catleias carregou-se com dezesseis botões e a outra só com dois, fui investigar, como médico examina paciente, o que estava acontecendo. Então concluí que tinha praticado uma ação horrível. Havia podado os bulbos, coisa proibida, pois é ali que surgem os botões.

Sentindo-me culpada, fui conversar de novo com minha professora de otimismo cuja sabedoria é grande. Ela me explicou que eu estava pagando o preço de não ter suportado a aparência da planta que na verdade estava gestando formas e cores. Eu queria beleza o tempo todo? Deu ruim! Bem dizem por aí que de boas intenções o inferno anda cheio.

Saí de lá com este verbo na cabeça: SUPORTAR. Pensei que na ficção Swann suportou por anos uma mulher vulgar e medíocre, ainda que bela; e Proust suportou viver a maior parte de sua existência num quarto fechado, todo forrado de cortiça por conta da asma que o acometia.

A criatura nascida na mente do escritor se perguntará no fim da vida por que havia suportado as infidelidades de uma mulher a quem ele nem amava nem admirava. Mas o criador, nos seus últimos dias, teve certeza de que sua tolerância ao ambiente era uma condição para escrever o romance que foi editando até o fim de seus dias e se tornou um dos melhores de todos os tempos.

Assim é a nossa vida. A questão é saber o que vale a pena suportar. E o que não vale. No caso das minhas catleias, aprendi que a beleza tem um custo. Resta-me agora esperar mais dez meses para ver de novo no meu vaso o milagre das flores que se alimentam de luz. Enquanto isso, vou relendo Proust, cujas metáforas pinçadas no reino vegetal vão muito além das catleias, pois o vasto jardim que se anuncia nos pilriteiros de Combray ultrapassa as roseiras dos Guermantes, desvelando de forma delicada, mas profunda as pulsões de vida que habitaram a alma do magistral ficcionista.

Quando o aristocrático Swann consegue o primeiro encontro a sós com Odette de Crécy, a cocotte chic, chamam-lhe atenção as orquídeas que a enfeitam. Ela leva uma dessas flores nas mãos; outra no chapéu; e ainda tem o vestido adornado por uma terceira. Todas pertencem à espécie Catleia. O casal está dentro de uma carruagem que corre pelas ruas de Paris. De repente, um obstáculo faz o cavalo se assustar. Odette desloca-se no seu banco e dá um gritinho. Swann inicia ali um tortuoso caso que vai durar anos:  ajuda-a a se recompor, começando por ajeitar as flores do decote. É o preâmbulo para a criação de um fetiche que jamais se apagará na mente do personagem de Em busca do tempo perdido, romance de Marcel Proust. A partir daí, Swann criará um neologismo pessoal para convidar a amante para a cama: “fazer catleia.”

Enquanto me detenho sobre o erotismo da cena, resgato a etimologia da palavra orquídea que significa testículo em grego e me pergunto sobre os possíveis leitores do caudaloso Proust nesse nosso tempo marcado pelo Twitter, olho para duas catleias que tenho no quintal, incrivelmente fixadas num muro. São roxas, mas há espécies de várias cores. Tenho outra branca, ancorada num galho de buganvília na frente de casa. Só florescem em junho.

Já vi em orquidários catleias cor de goiaba, de vinho e até negras- essas, raridades. Todas têm origem na América do Sul. Na Europa até hoje são consideradas exóticas, como no tempo em que o escritor francês viveu.  Seu preço sempre foi alto. Vi no site de uma floricultura de Grenoble, magnífica espécie carmim vendida por duzentos euros! Nas brasileiras tais plantas são pouco comuns; os cruzamentos que garantiram as phalaenopsis de origem asiática, duráveis até quatro meses em suas altas hastes, exilaram as catleias, que logo fenecem e demandam mais trabalho de conservação.

Um orquidófilo me disse recentemente que as catleias precisam de muita luz direta, mas odeiam o sol do meio-dia.  Colocadas dentro de casa, devem ficar próximas de uma janela virada para leste. Ao ar livre, pedem luz e aragem durante sete horas. A temperatura ideal nas estufas deve ficar entre os 13 e os 16 graus à noite; durante o dia, entre 20 e 30. As jovens precisam de temperaturas mais elevadas que as maduras. Cito de memória; havia um longo etc. na fala de meu amigo. Ouvi tudo, avaliando que elas lhe davam mais trabalho que seu neto recém-nascido. E fiquei instigada em relação ao fato de que as minhas não tinham tais privilégios, suas raízes se agarravam há tempos ao muro caiado de forma que ninguém as arrancava dali. Mesmo assim, na ocasião certa, ficavam carregadinhas de flores. Quer dizer, até agora.

Aconteceu que no começo do ano achei que a da esquerda estava muito feia, com partes secas ou amareladas que me irritavam. O curioso é que ela está ali há sete anos e nunca havia me incomodado nessa fase de entressafras. Hoje penso que naquele momento projetava nela alguma outra fealdade.  Então fiz coisa indevida por desconhecer seus efeitos. Peguei uma tesoura e cortei aquelas protuberâncias secas, os tais pseudobulbos, nome que vim a saber depois. Na hora fiquei aliviada. Mas algo em seguida me bateu de leve, tipo “será que fiz a coisa certa?” Na dúvida, poupei a outra, que aliás não estava com má aparência.

Na voragem dos dias esqueci o episódio. Mas neste junho, quando uma das duas catleias carregou-se com dezesseis botões e a outra só com dois, fui investigar, como médico examina paciente, o que estava acontecendo. Então concluí que tinha praticado uma ação horrível. Havia podado os bulbos, coisa proibida, pois é ali que surgem os botões.

Sentindo-me culpada, fui conversar de novo com minha professora de otimismo cuja sabedoria é grande. Ela me explicou que eu estava pagando o preço de não ter suportado a aparência da planta que na verdade estava gestando formas e cores. Eu queria beleza o tempo todo? Deu ruim! Bem dizem por aí que de boas intenções o inferno anda cheio.

Saí de lá com este verbo na cabeça: SUPORTAR. Pensei que na ficção Swann suportou por anos uma mulher vulgar e medíocre, ainda que bela; e Proust suportou viver a maior parte de sua existência num quarto fechado, todo forrado de cortiça por conta da asma que o acometia.

A criatura nascida na mente do escritor se perguntará no fim da vida por que havia suportado as infidelidades de uma mulher a quem ele nem amava nem admirava. Mas o criador, nos seus últimos dias, teve certeza de que sua tolerância ao ambiente era uma condição para escrever o romance que foi editando até o fim de seus dias e se tornou um dos melhores de todos os tempos.

Assim é a nossa vida. A questão é saber o que vale a pena suportar. E o que não vale. No caso das minhas catleias, aprendi que a beleza tem um custo. Resta-me agora esperar mais dez meses para ver de novo no meu vaso o milagre das flores que se alimentam de luz. Enquanto isso, vou relendo Proust, cujas metáforas pinçadas no reino vegetal vão muito além das catleias, pois o vasto jardim que se anuncia nos pilriteiros de Combray ultrapassa as roseiras dos Guermantes, desvelando de forma delicada, mas profunda as pulsões de vida que habitaram a alma do magistral ficcionista.

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