NOSSAS LETRAS

NOSSAS LETRAS

A literatura resiste, apesar de.

A literatura resiste, apesar de.

Seres por excelência sonhantes, escritores podem estimular através de sua escrita a imaginação dos leitores. Leia o artigo de Sonia Machiavelli.

Seres por excelência sonhantes, escritores podem estimular através de sua escrita a imaginação dos leitores. Leia o artigo de Sonia Machiavelli.

Por Sonia Machiavelli | 06/08/2022 | Tempo de leitura: 2 min
especial para o GCN

Por Sonia Machiavelli
especial para o GCN

06/08/2022 - Tempo de leitura: 2 min

"Se a vida é a arte do encontro", como a definiu Vinícius de Moraes, pertencer à Academia significa para mim estar enfim reunida também presencialmente com os que buscam na palavra literária muitas traduções. De mundos até então ignorados. De emoções distintas ou embaralhadas. De sonhos, que deles é feita grande parte da vida dos escritores; e a existência de todos, enfim, que buscam no cotidiano não apenas o feijão.

Seres por excelência sonhantes, escritores podem estimular através de sua escrita a imaginação dos leitores, inspirando-os a uma vida cada vez mais desdobrável. Com descobertas sobre si mesmos. O outro. A condição de se expandir sempre. “A Literatura existe porque a vida não basta,” escreveu Ferreira Gullar a partir de um verso de Fernando Pessoa.

No Brasil onde a Literatura, como outras Artes, foi ignorada pelo poder público nos últimos anos, há algumas notícias surpreendentes e animadoras.

O menosprezo, em lugar de minguar a produção literária e o gosto pela leitura, teve efeito contrário. Nunca se publicou tanto como agora, com destaque para as escritoras cujos títulos cresceram 28% em relação a três anos atrás. Nunca se leu tanto quanto nos dois anos em que a Covid nos afetou. Pessoas necessitadas de conforto e refrigério para a alma assolada pelo medo da pandemia, carentes de entretenimento para o espírito, ávidas por histórias que as levassem a sonhar um mundo menos ameaçador, recorreram aos livros. Nunca tivemos uma Bienal do Livro tão prestigiada como a deste ano. 

A Literatura, portanto, resiste. Apesar das políticas contrárias a ela. Das mensagens elípticas nos celulares. Dos memes em lugar de frases. De imagens eletrônicas de pouca consistência. Do Twitter com seus 280 toques. Das 764 bibliotecas públicas fechadas no Brasil nos últimos quatro anos.

 A Literatura resiste em todos os seus gêneros e plataformas porque ela pode nos ajudar a encontrar respostas a frequentes perguntas que nos fazemos. Sobre nosso estar no mundo. Os confrontos difíceis.  O modo de funcionamento de uns e outros.  A necessidade de aceitar e respeitar toda individualidade.  O mistério de cada vida.

 A Literatura resiste porque, em sua essência, desvela e nomeia sentimentos que transitam pela nossa ALMA, essa CASA que hospeda alegrias e tristezas, ódio e amor, euforia e depressão, compaixão e indiferença... Enfim, toda a vasta gama de emoções, muitas vezes tornadas “suco de sentimentos”, porque juntas e misturadas.  São elas que nos tornam humanos.

Foi como leitora que fui me constituindo escritora. Para chegar aqui, trilhei um longo caminho que começou com o primeiro livro que ganhei por volta dos oito anos. Ele me encantou tanto que desejei morar no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Depois, quis escrever como Monteiro Lobato.

Esse encantamento me acompanhou a cada autor que descobri ao longo da vida.  Foram centenas os que me exemplificaram que “a palavra é um esticador de horizontes”, como disse recentemente Mia Couto em entrevista. “

....

Trecho de meu discurso de ontem, na posse como patrona da cadeira 18, ocupada pelo saudoso Alfredo Palermo.

"Se a vida é a arte do encontro", como a definiu Vinícius de Moraes, pertencer à Academia significa para mim estar enfim reunida também presencialmente com os que buscam na palavra literária muitas traduções. De mundos até então ignorados. De emoções distintas ou embaralhadas. De sonhos, que deles é feita grande parte da vida dos escritores; e a existência de todos, enfim, que buscam no cotidiano não apenas o feijão.

Seres por excelência sonhantes, escritores podem estimular através de sua escrita a imaginação dos leitores, inspirando-os a uma vida cada vez mais desdobrável. Com descobertas sobre si mesmos. O outro. A condição de se expandir sempre. “A Literatura existe porque a vida não basta,” escreveu Ferreira Gullar a partir de um verso de Fernando Pessoa.

No Brasil onde a Literatura, como outras Artes, foi ignorada pelo poder público nos últimos anos, há algumas notícias surpreendentes e animadoras.

O menosprezo, em lugar de minguar a produção literária e o gosto pela leitura, teve efeito contrário. Nunca se publicou tanto como agora, com destaque para as escritoras cujos títulos cresceram 28% em relação a três anos atrás. Nunca se leu tanto quanto nos dois anos em que a Covid nos afetou. Pessoas necessitadas de conforto e refrigério para a alma assolada pelo medo da pandemia, carentes de entretenimento para o espírito, ávidas por histórias que as levassem a sonhar um mundo menos ameaçador, recorreram aos livros. Nunca tivemos uma Bienal do Livro tão prestigiada como a deste ano. 

A Literatura, portanto, resiste. Apesar das políticas contrárias a ela. Das mensagens elípticas nos celulares. Dos memes em lugar de frases. De imagens eletrônicas de pouca consistência. Do Twitter com seus 280 toques. Das 764 bibliotecas públicas fechadas no Brasil nos últimos quatro anos.

 A Literatura resiste em todos os seus gêneros e plataformas porque ela pode nos ajudar a encontrar respostas a frequentes perguntas que nos fazemos. Sobre nosso estar no mundo. Os confrontos difíceis.  O modo de funcionamento de uns e outros.  A necessidade de aceitar e respeitar toda individualidade.  O mistério de cada vida.

 A Literatura resiste porque, em sua essência, desvela e nomeia sentimentos que transitam pela nossa ALMA, essa CASA que hospeda alegrias e tristezas, ódio e amor, euforia e depressão, compaixão e indiferença... Enfim, toda a vasta gama de emoções, muitas vezes tornadas “suco de sentimentos”, porque juntas e misturadas.  São elas que nos tornam humanos.

Foi como leitora que fui me constituindo escritora. Para chegar aqui, trilhei um longo caminho que começou com o primeiro livro que ganhei por volta dos oito anos. Ele me encantou tanto que desejei morar no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Depois, quis escrever como Monteiro Lobato.

Esse encantamento me acompanhou a cada autor que descobri ao longo da vida.  Foram centenas os que me exemplificaram que “a palavra é um esticador de horizontes”, como disse recentemente Mia Couto em entrevista. “

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Trecho de meu discurso de ontem, na posse como patrona da cadeira 18, ocupada pelo saudoso Alfredo Palermo.

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